Texto motivacional – Os pássaros voam…

Texto motivacional – Os pássaros voam…

Ainda era tardinha, quando do alto da varanda do meu quarto, olhando a longa e florida árvore de ipê, tão próxima das minhas mãos, no seu galho mais frágil, notei uma formação estranha, que havia se iniciado com meia dúzia de fiapos de capim, misturados com fibras de folhas secas entrelaçadas por brancos e acetinados flocos de paineira. Me perdi por minutos imaginando se seriam os ventos do outono, por mera coincidência, que haviam conseguido levar aqueles tantos e variados fragmentos até àquelas alturas, e os reunido com a aparência tão perfeita de uma pequenina cama forrada de cetim.

Depois, concluí que a natureza vigorosa e imprevisível, é capaz de construir imensos desertos e infindáveis florestas; belíssimas praias e profundos oceanos; incríveis montanhas e vales de sonhos, todos igualmente intrigantes, além de uma vida borbulhante por todos os lados da nossa existência, portanto, não havia mistério. Apenas, uma soma de coincidências criava um novo e belo desenho a enfeitar a árvore mais bonita do meu jardim, cujos galhos, amigos, avançavam sobre a minha varanda.

Quando a noite chegou, provavelmente, ainda embalado pela percepção dos dotes da natureza, voltei a procurar por aquele minúsculo ponto claro, entre as folhas, e tive a nítida impressão de que havia alguma alteração na sua forma, o que, claro, poderia ser explicado pelo reflexo morno da luz da lua que já se levantava ao leste.

Nos dois dias seguintes nada percebi e, portanto, meus dias foram rotineiros, sem sequer notar as cores da alegria; os ruídos da vida e nem mesmo o calor das almas que permeiam os nossos momentos e que, só por isso, já justificariam, com sobras, todos os sorrisos que nem sempre despendemos.

Mas, foi no terceiro dia, quase que de surpresa, que me certifiquei de que a natureza havia construído algo muito especial. Não era propriamente obra do vento, mas, maravilhosamente, era o resultado de um árduo trabalho de dois pequenos pássaros, anônimos, que atendendo à sua programação primitiva, construíam um modesto, mas confortável ninho, no qual poderiam depositar os seus ovos e cumprir a profecia da preservação da espécie.

Perdi, ou ganhei, muitos minutos ali, contemplando a evolução da vida, sentindo o mundo crescendo e se desenvolvendo ao meu lado. Àquela altura não só o ninho tinha dimensões e forma delineadas, mas as folhas do ipê também se multiplicavam, e criavam uma cortina espessa de proteção que, ao mesmo tempo se misturavam e se transformavam em um inusitado suporte sólido, entrelaçando e fortalecendo aquele novo e abençoado lar.

Foram belos dias, semanas até, em que adotei o saudável hábito de, do canto da minha varanda, todas as manhãs e, tanto quando possível também à noitinha, acompanhar a evolução do ninho e admirar a notável cumplicidade dos seus construtores.

Um dia, depois de uma chuva mais forte, com o coração apreensivo, levantei mais cedo e fui conferir os eventuais estragos que o vento e a água abundantes pudessem ter causado naquela tão delicada obra. Fiquei surpreendido de ver que uma das aves, completamente encharcada, com as asas semi-abertas, como que protegendo da água toda a pequenina construção, ainda estava sobre o ninho.

De pronto não consegui imaginar o que poderia fazer para dar fôlego àquela admirável determinação e demonstração de força do pássaro que teimava em desafiar as intempéries naturais, alheia aos ventos e às águas que lhe escorriam pelas penas. Contudo, de repente, outra surpresa me deixou mais perplexo ainda. O outro pássaro, como que um soldado da guarda imperial, mais molhado que o primeiro, também estava ali, ao lado, solidário, aguardando a sua hora para cumprir o sagrado dever de revezamento.

Imediatamente reconheci a minha insignificância, a minha fraqueza e a minha mais completa ignorância diante do vigor, da força e da competência da natureza, e deixei a minha varanda, feliz, mas atordoado. Havia adquirido um conhecimento novo, e experimentado um sentimento diferente, pela via da mais dura realidade da natureza.

Alguns dias se passaram e eu me recusava a chegar até à varanda, queria me abstrair do que se passava, tinha vergonha de confrontar o calor do meu conforto com o frio e a umidade que grassava o ínfimo espaço que possuía o casal de pássaros. Entretanto, ao vislumbrar, ao longe, ainda meio tímida, uma pequena réstia de sol, me animei. Era um bom sinal, talvez ainda fosse possível que os meus vizinhos, ocupantes do pequeno galho do meu ipê, ainda estivessem vivos, e pudessem se recuperar e sobreviver.

Então, um pouco ressabiado, como quem quer e não quer, fui chegando até à varanda, olhei de soslaio, depois, mais diretamente, e já não vi nenhum dos pássaros cobrindo o ninho. Fiquei decepcionado, e resolvi chegar mais perto para conferir. Quando afastei alguns ramos, pude observar um movimento, era uma nova vida, ávida por alimento, que ao menor ruído da vegetação lateral, abria o bico, às escâncaras, enquanto piava, simultaneamente. Um filhote, vivo, apesar de tudo.

Eu queria ajudar, mas não foi necessário, os donos do ninho chegaram, agressivos, me expulsaram das imediações. Estavam recompostos e secos, cada um trazia um inseto no bico, e o filhote se acalmou.

Na manhã seguinte, um dia de sol, claro e quente. E eu, na minha visita rotineira, vi que o filhote já havia saído do ninho, ensaiava alguns movimentos de asa, mas ainda não voava. Circulava pelos galhos e voltava para o ninho, depois saia novamente, ansioso, querendo voar, mas, o galho era alto e as asas ainda eram curtas.

Durante três manhãs eu o vi repetir os mesmos gestos e treinamentos. Agora, já mais confiante, pulava de um galho para o outro, e já não conseguia ficar no ninho. Então, pude observar que os seus pais estavam do lado, na árvore mais próxima e, insistentes, assobiavam uma cantilena repetitiva e estimuladora. Só então tive certeza de que aquele era um ritual de iniciação, era hora do pequeno filhote tomar o seu caminho, ganhar os ares, se tornar livre e independente.

Foram três as tentativas, duas frustrantes; o jovem batia as asas, mas não conseguia soltar suas pequenas garras do galho que o suportava. Estava inseguro, é claro. Contudo, na terceira, tal como os adultos, abriu completamente as asas, estufou o peito, recolheu os pés e se soltou no ar. Prendi a respiração, temi que o filhote não conseguisse voar, e se arrebentasse no concreto ou caísse na piscina. Mas minha angústia durou pouco. Em meio aos assobios dos pássaros pais, e sob os olhares de várias outras aves que assistiam àquele momento único, o filhote venceu o medo, cruzou os ares e, com a imponência de majestade absoluta, visitou outras árvores e se juntou aos demais em uma volta triunfal pelas redondezas.

Não o vi mais, pelo menos não ali, naquele ninho, no galho mais escondido do meu ipê amarelo. Bem, talvez até já o tenha visto, em meio aos demais, porém, sem reconhecê-lo. Meses são passados, e todas as manhãs ainda mantenho o hábito de conferir o velho ninho, agora sem vida, roto e abandonado, em vão. Às vezes me atinge uma leve frustração, como que se faltasse algum pedaço do meu eu, mas, depois, ouço um alvoroço no jardim ou, mais distante, um incessante cantar de pássaros felizes e livres, e então, resignado, me sinto um pouco mais confortado.

Até hoje um sentimento de abandono, vez por outra, ainda passa pela minha cabeça quando constato que minha varanda ficou mais pobre; já não os posso ver construindo o seu ninho ou sequer exercitando suas asas. Eles se foram, é verdade. Talvez até estejam pelos arredores, mas, já não faço parte das suas manhãs, e o filhote, embora nascido ali, bem ao meu lado, nem sequer freqüenta mais o meu ipê.

É… a vida é assim, faz parte da natureza. Os pássaros voam.

Fonte: Site Vendedor @utonomo

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